segunda-feira, 30 de abril de 2018

Te amo, mãe!

O dia de amanhã para mim sempre foi sinal de feriado. Não por conta do Dia do Trabalhador, mas pelo Dia Internacional da minha Mãe. Amanhã será o primeiro dia da minha vida no qual eu não conseguirei implicar e dar o Feliz Aniversário à Dona Dotye.
Minha mãe sempre foi arisca com essa data. Esse era o dia que ela evitava, pois era o dia em que ficava mais velha. Fugia de todos. Ficava em casa sem atender ninguém. Mas no dia seguinte conferia todos os recados na sua "secretária eletrônica" e não gostava de quem a esquecia. Coisas dela.
Mas algumas pessoas ela sempre atendia. Eu e meu irmão éramos algumas delas. Afortunados.

Mãe,

Receba meu beijo e meu abraço pelo seu dia, que sempre será seu. 
Como escreveu um compositor: "você não me ensinou a te esquecer, você só me ensinou a te querer, e te querendo vou tentando te encontrar. Vou me perdendo..."
O resto da música não é pra gente, mas esse pedaço somado à uma outra estrofe de outra música, sim, valem. Dizendo, "sorria e abrace seus pais enquanto estão aqui, que a vida é trem bala, parceiro, e a gente é só passageiro prestes a partir".
Trem bala de fato. Sorri, te abracei, te beijei e lhe disse muitas vezes que te amo. Seus ensinamentos e sua luta fizeram de mim um homem melhor, assim como ao meu irmão.
Mas não aprendi a ser tão forte como vocês. São muitas as lembranças, mas muito mais são as experiências que não vivemos, e que poderíamos ter vivido. Trem bala.
Hoje foquei no trabalho e por algum tempo pude não pensar muito em amanhã, mas tenho certeza que devastador será o próximo Primeiro de Maio.
Sei que estás bem, mas sua falta, seus conselhos, suas broncas, seu abraço.... me fariam bem melhor.
Descanse em paz. Nos dê força para superar e compreender.

Outro beijo,
ANGELO

 

domingo, 1 de abril de 2018

José Saramago

"Gostar é provavelmente a melhor maneira de ter, ter deve ser a pior maneira de gostar".

quinta-feira, 1 de março de 2018

Miyamoto Musashi

"Não existe nada fora de você que permita que você se torne melhor, mais forte, mais rico, mais rápido ou mais inteligente. Tudo vem de dentro. Tudo existe. Não procure nada fora de si mesmo".



quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

domingo, 28 de janeiro de 2018

Portugal e seus requintes literários

Quando fui à Portugal tentei refazer passos de alguns de meus ídolos da literatura. Um deles, sem dúvidas, é José Saramago. Pude conhecer a beleza e o tesouro cultural que é a Fundação José Saramago, na Casa dos Bicos, Largo das Cebolas, em Lisboa. Apesar das cebolas...

Um dos muitos textos que pude ler por lá, esse me deu uma aula de história lusitana e resolvi compartilhar por aqui. Espero que desfrutem como eu ainda hoje o faço.


Palavras para uma cidade
José Saramago

Tempo houve em que Lisboa não tinha esse nome. Chamavam-lhe Olisipio quando os Romanos ali chegaram, Olissibona quando a tomaram os Mouros, que logo deram em dizer Achbouna, talvez porque não soubessem pronunciar a bárbara palavra. Quando, em 1147, depois de um cerco de três meses, os Mouros foram vencidos, o nome da cidade não mudou logo na hora seguinte: se aquele que iria ser o nosso primeiro rei enviou à família uma carta a anunciar o feito, o mais provável é que tenha escrito ao alto Aschbouna, 24 de Outubro, ou Olissibona, mas nunca Lisboa. Quando começou Lisboa a ser Lisboa de facto e de direito? Pelo menos alguns anos tiveram de passar antes que o novo nome nascesse, tal como para que os conquistadores Galegos começassem a tornar-se Portugueses... Essas miudezas históricas interessam pouco, dir-se-á, mas a mim interessar-me-ia muito, não só saber, mas ver, no exacto sentido da palavra, como veio mudando Lisboa desde aqueles dias. Se o cinema já existisse então, se os velhos cronistas fossem operadores de câmara, se as mil e uma mudanças por que Lisboa passou ao longo dos séculos tivessem sido registradas, poderíamos ver essa Lisboa de oito séculos crescer e mover-se como um ser vivo, como aquelas flores que a televisão nos mostra, abrindo-se em poucos segundos, desde o botão ainda fechado ao esplendor final das formas e das cores. Creio que amaria a essa Lisboa por cima de todas as cousas. Fisicamente, habitamos um espaço, mas, sentimentalmente, somos habitados por uma memória. Memória que é a de um espaço e de um tempo, memória no interior da qual vivemos, como uma ilha entre dois mares: um que dizemos passado, outro que dizemos futuro. Podemos navegar no mar do passado próximo graças à memória pessoal que conservou a lembrança das suas rotas, mas para navegar no mar do passado remoto teremos de usar as memórias que o tempo acumulou, as memórias de um espaço continuamente transformado, tão fugidio como o próprio tempo. Esse filme de Lisboa, comprimindo o tempo e expandindo o espaço, seria a memória perfeita da cidade. O que sabemos dos lugares é coincidirmos com eles durante um certo tempo no espaço que são. O lugar estava ali, a pessoa apareceu, depois a pessoa partiu, o lugar continuou, o lugar tinha feito a pessoa, a pessoa favia transformado o lugar. Quando tive de recriar o espaço e o tempo de Lisboa onde Ricardo Reis viveria o seu último ano, sabia de antemão que não seriam coincidentes as duas noções do tempo e do lugar: a do adolescente tímido que fui, fechado na sua condição social, e a do poeta lúcido e genial que frequentava as mais altas regiões do espírito. A minha Lisboa foi sempre a dos bairros pobres, e quando, muito mais tarde, as circunstâncias me levaram a viver noutros ambientes, a memória que preferi guardar foi a da Lisboa dos meus primeiros anos, a Lisboa da gente de pouco ter e de muito sentir, ainda rural nos costumes e na compreensão do mundo. Talvez não seja possível falar de uma cidade sem citar quantas datas notáveis da sua existência histórica. Aqui, falando de Lisboa, foi mencionada uma só, a do seu começo português: não será particularmente grave o pecado de glorificação... sê-lo-ia, sim, ceder àquela espécie de exaltação patriótica que, à falta de inimigos reais sobre que fazer cair o seu suposto poder, procura os estímulos fáceis da evocação retórica. As retóricas comemorativas, não sendo forçosamente um mal, comportam no entanto um sentimento de auto-complacência que leva a confundir as palavras com os actos, quando as não coloca no lugar que só a eles competiria. Naquele dia de Outubro, o então ainda mal iniciado Portugal deu um largo passo em frente, e tão firme foi ele que não voltou Lisboa a ser perdida. Mas não nos permitamos a napoleônica vaidade de exclamar: "Do alto daquele castelo oitocentos anos nos contemplam" - e aplaudir-nos depois uns aos outros por termos durado tanto... Pensemos antes que do sangue derramado por um e outro lados está feito o sangue que levamos nas veias, nós, os herdeiros desta cidade, filhos de cristãos e de mouros, de pretos e de judeus, de índios e de amarelos, enfim, de todas as raças e credos que se dizem bons de todos os credos e raças a que chamam maus. Deixemos na irónica paz dos túmulos aquelas mentes transviadas que, num passado não distante, inventaram para os Portugueses um "dia da raça", e reinvidiquemos a magnífica mestiçagem, não apenas de sangues, mas sobretudo de culturas, que fundou Portugal e o fez durara até hoje. Lisboa tem-se transformado nos últimos anos, foi capaz de acordar na consciência dos seus cidadãos o renovo de forças que a arrancou do marasmo em que caíra. Em nome da modernização levantam-se muros de betão sobre as pedras antigas, transtornam-se os perfis das colinas, alteram-se os panoramas, modificam-seos ângulos de visão. Mas o espírito de Lisboa sobrevive, e é o espírito que faz eternas as cidades. Arrebatado por aquele louco amor e aquele divino entusiasmo que moram nos poetas, Camões escreveu um dia, falando de Lisboa: "...cidade que facilmente das outras é princesa". Perdoemos-lhe o exagero. Basta que Lisboa seja simplesmente o que deve ser: culta, moderna, limpa, organizada - sem perder nada da sua alma. E se todas estas bondades acabarem por fazer dela uma rainha, pois que o seja. Na república que nós somos serão sempre bem-vindas rainhas assim.

Fonte: Folhas Políticas 1976-1998, Caminho, 1999, pp 178-182.