quinta-feira, 11 de abril de 2019

Memórias Lusitanas: O que Lisboa significa para você?


Em 2014 tive a oportunidade de ir pela primeira vez às terras lusitanas e conhecer o fascinante Portugal, com tantas histórias e contos. Busquei de todas as formas conhecer mais sobre a literatura daquele país que adoro. Em uma dessas pesquisas me vi uma tarde toda sem querer sair da Casa dos Bicos, na Fundação José Saramago, a qual recomendo demais para quem curte. Dos diversos textos que li por lá, um deles gostaria de compartilhar em sua íntegra. E fala sobre a origem de Lisboa e seu encantamento pelo escritor José Saramago...

"Palavras para uma cidade"
José Saramago

Tempo houve em que Lisboa não tinha esse nome. Chamavam-lhe Olisipio quando os Romanos ali chegaram, Olissibona a tomaram os Mouros, que logo deram em dizer Aschbouna, talvez porque não soubessem pronunciar a bárbara palavra. Quando em 1147, depois de um cerco de três meses, os Mouros foram vencidos, o nome da cidade não mudou logo na hora seguinte: se aquele que iria ser o nosso primeiro rei enviou à família uma carta a anunciar o feito, o mais provável é que tenha escrito ao alto Aschbouna, 24 de outubro, ou Olissibona, mas nunca Lisboa. Quando começou Lisboa a ser Lisboa de facto e de direito? Pelo menos alguns anos tiveram de passar antes que o novo nome nascesse, tal como para os conquistadores Galegos começassem a tornar-se Portugueses... Estas miudezas históricas interessam pouco, dir-se-á, mas a mim interessar-me-ia muito, não só saber, mas ver; no exacto sentido da palavra, como veio mudando Lisboa desde aqueles dias.
Se no cinema já existisse então, se os velhos cronistas fossem operadores de câmara, se as mil e uma mudanças por que Lisboa passou ao longo dos séculos tivessem sido registradas, poderíamos ver essa Lisboa de oito séculos crescer e mover-se como um ser vivo, como aquelas flores que a televisão nos mostra, abrindo-se em poucos segundos, desde o botão ainda fechado ao esplendor final das formas e das cores. Creio que amaria a essa Lisboa por cima de todas as cousas. Fisicamente, habitamos um espaço, mas, sentimentalmente, somos habitados por uma memória. Memória que é a de um espaço e de um tempo, memória no interior da qual vivemos, como uma ilha entre dois mares: um que dizemos passado, outro que dizemos futuro. podemos navegar no mar do passado próximo graças à memória pessoal que conservou a lembrança das suas rotas, mas para navegar o mar do passado remoto teremos de usar as memórias que o tempo acumulou, as memórias de um espaço continuamente transformado, tão fugidio como o próprio tempo. Esse filme de Lisboa, comprimindo o tempo e expandindo o espaço, seria a memória perfeita da cidade. O que sabemos dos lugares é coincidirmos com eles durante um certo tempo no espaço que são. O lugar estava ali, a pessoa apareceu, depois a pessoa partiu, o lugar continuou, o lugar tinha feito a pessoa, a pessoa havia transformado o lugar. 
Quando tive de recriar o espaço e o tempo de Lisboa onde Ricardo Reis viveria o seu último ano, sabia de antemão que não seriam coincidentes as duas noções do tempo e do lugar: a do adolescente tímido que fui, fechado na sua condição social, e a do poeta lúcido e genial que frequentava as mais altas regiões do espírito. A minha Lisboa foi sempre a dos bairros pobres, e quando, muito mais tarde, as circunstâncias me levaram a viver noutros ambientes, a memória que preferi guardar foi a da Lisboa dos meus primeiros anos, a Lisboa da gente de pouco ter e de muito sentir, ainda rural nos costumes e na compreensão do mundo. Talvez não seja possível falar de uma cidade sem citar quantas datas notáveis da sua existência histórica. Aqui, falando de Lisboa, foi mencionada uma só, a do seu começo português: não será particularmente grave o pecado de glorificação... Sê-lo-ia, sim, ceder àquela espécie de exaltação patriótica que, à falta de inimigos reais sobre que fazer cair o seu suposto poder; procura os estímulos fáceis da evocação retórica. As retóricas comemorativas, não sendo forçosamente um mal, comportam no entanto um sentimento de autocomplacência que leva a confundir as palavras com os actos, quando as não coloca no lugar  que só a eles competiria. 
Naquele dia de Outubro, o então ainda mal iniciado Portugal deu um largo passo em frente, e tão firme foi ele que não voltou Lisboa a ser perdida. Mas não nos permitamos a napoleónica vaidade de exclamar: "Do alto daquele castelo oitocentos anos nos contemplam" - e aplaudir-nos depois uns aos outros por termos durado tanto... Pensemos antes que do sangue derramado por um e outro lados está feito o sangue que levamos nas veias, nós, os herdeiros desta cidade, filhos de cristãos e de mouros, de pretos e de judeus, de índios e de amarelos, enfim, de todas as raças e credos que se dizem bons, de todos os credos e raças a que chamam maus. Deixemos na irónica paz dos túmulos aquelas mentes transviadas que, num passado não distante, inventaram para os Portugueses um "dia da raça", e reivindiquemos a magnífica mestiçagem, não apenas de sangues, mas sobretudo de culturas, que fundou Portugal e o fez durar até hoje. Lisboa tem-se transformado nos últimos anos, foi capaz de acordar na consciência dos seus cidadãos o renovo de forças que a arrancou do marasmo em que caíra. Em nome da modernização levantam-se muros de betão sobre as pedras antigas, transtornam-se os perfis das colinas, alteram-se os panoramas, modificam-se os ângulos de visão. Mas o espírito de Lisboa sobrevive, e é o espírito que faz eternas as cidades.
Arrebatado por aquele louco amor e aquele divino entusiasmo que moram nos poetas, Camões escreveu um dia, falando de Lisboa: "...cidade que facilmente das outras é princesa". Perdoemos-lhe o exagero. Basta que Lisboa seja simplesmente o que deve ser: culta, moderna, limpa, organizada - sem perder nada da sua alma. E se todas bondades acabarem por fazer dela uma rainha, pois que o seja. Na república que nós somos serão sempre bem-vindas rainhas assim.

Fonte: Folhas Políticas 1976-1998. Caminho, 1999, pp 178-182.

segunda-feira, 1 de abril de 2019

Noel Rosa

..."Não me incomodo que você me diga
Que a sociedade é minha inimiga
Pois cantando neste mundo
Vivo escravo do meu samba, muito embora vagabundo"...

Noel Rosa (trecho da música: Filosofia)

sábado, 16 de março de 2019

Ontem foi celebrado o Dia Nacional da Poesia!

Timidez

Basta-me um pequeno gesto,
feito de longe e de leve,
para que venhas comigo
e eu para sempre te leve…
- mas só esse eu não farei.
Uma palavra caída
das montanhas dos instantes
desmancha todos os mares
e une as terras mais distantes…
- palavra que não direi.
Para que tu me adivinhes,
entre os ventos taciturnos,
apago meus pensamentos,
ponho vestidos noturnos,
- que amargamente inventei.
E, enquanto não me descobres,
os mundos vão navegando
nos ares certos do tempo,
até não se sabe quando…
e um dia me acabarei.

Cecília Meireles 

 

terça-feira, 5 de março de 2019

Salve o Carnaval! Salve a alegria!

Na antiga política romana do "Pão e Circo", não se falava em política nos espetáculos. Talvez houvesse uma razão nisso, razão que não consideramos mais nos dias atuais.
Bom, na minha humilde opinião, o Carnaval é um momento de alegria e descontração, a política romana na essência, mas de forma consciente. Nos divertimos porque merecemos, por gostarmos, por ser libertador e alegre.
Manifestações políticas, sejam de que bandeira for, deveriam ficar nos outros dias do ano, não aqui. A realidade brasileira está parecendo um Facebook doido para virar Orkut. Só se fala e se discute bandeiras e posicionamentos políticos.
Sou à favor de menos bandeiras e bandeiradas e mais engajamento real e propósitos.
Menos "mimimi" e mais "bóra fazer". 
O bom seria discutir, em uma boa mesa de bar, as inovações dos sambas e baterias. Que bacana ver minha Mocidade introduzir o ritmo gostoso do Timbau em suas paradinhas a la Mestre André, ou a batida do surdo sem resposta da Mangueira, ou o presente que foi ver um exemplo real de empoderamento feminino com a Mestre Thaís Rodrigues, a primeira mulher Mestre de Bateria de Escola de Samba na Feitiço do Rio, que desfilará dia 09 de março pelo Grupo E. Thaís é cria da Rocinha, meu amigo e Mestre Zezinho (Zé Luiz) deve estar contente lá no alto da serra.
Que show ver a Portela homenagear o canto do sabiá de Clara Nunes, a religiosidade dos Orixás no Salgueiro, a elegância do Mestre Casagrande no comando da Bateria da Unidos da Tijuca e tantas outras coisas boas que aconteceram nesse Carnaval.
Ontem, em um bloco de rua em Ponta Negra, aqui em Natal - RN, comentei com Vivi a minha alegria de ver crianças sambando e dizendo no pé. Enquanto isso existir a esperança não estará perdida. A esperança de Charles Chaplin, retratado na minha Mocidade, e quem acreditava na beleza das coisas.
Que nesses poucos dias sejamos mais samba, mais amigos e muito mais amor!
Namastê!!! 



 

sexta-feira, 1 de março de 2019

Arlindo Cruz

..."Pra curar o desamor
e a tristeza afastar,
você que nunca sambou
se liga, tem que sambar"...

Arlindo Cruz, Xande de Pilares e Mauro Jr. (trecho da música: Samba de Arerê)

domingo, 3 de fevereiro de 2019

Minha esperança se enfraquece...

Muito difícil o momento que vivemos. Não me refiro ao momento político, econômico ou das fases da lua. Me refiro à fotografia atual da falta de solidariedade e pensamento no coletivo que o Brasil vive. E, antes que alguém defenda uma bandeira A ou B, estou falando dos últimos 100 anos.
À cada dia fica mais complicado manter a esperança no nosso país.
Indignação é a palavra que melhor define. Crimes como esses de Brumadinho e de Mariana deveriam ser vistos de outra forma.
Em qualquer país mais sério o país deveria se mobilizar para corrigir o que ficou e evitar que aconteça novamente. Nem uma coisa nem outra foram feitas. O lucro de uns pesa muito mais no Brasil que o bem estar de muitos outros.
O Governo, seja de qual bandeira for tinha de assegurar a correção do efeito gerado pelo crime ambiental cometido. As centenas de famílias que perderam seus sonhos, não perderam apenas casas e vidas, perderam sonhos e sorrisos. Perderam esperança, perderam histórias de vida, perderam tudo.
Seria o momento da máquina do Estado entrar em ação e depois se preocupar em cobrar dos verdadeiros responsáveis essa conta. E não o contrário. Em Mariana foi exatamente o contrário, estão esperando até hoje, 3 anos depois, que a empresa criminosa devolva a dignidade das famílias atingidas. Não pode ser assim.
Temos diversas Embrapas, IBAMAs, Ministérios e outros órgãos públicos que deveriam parar o que estão fazendo ou designar equipes suficientes para equacionar os problemas ambientais e de produção rural nessas regiões. De imediato. Como resgatar a economia local? Como fornecer moradias dignas a essas pessoas e condições de recuperar o que perderam? Depois disso, só depois, é que o Governo deveria ir atrás da empresa e cobrar essa fatura.
Estamos preocupados com a fratura do Neymar, com a eleição na Câmara e no Senado, com os Big Brothers da vida real e não em ajudar quem precisa de verdade. Talvez por isso temos jovens cada dia mais alienados e fúteis, quando deveriam ser mais responsáveis e engajados socialmente.
Quais serão as prioridades nesse momento dos nossos órgãos públicos?
Enquanto a coletividade não for prioritária viveremos no país que gera ações para o próprio umbigo. E, também nesse caso, a conta chega um dia. E chega cara.
Como manter a esperança em nosso país dessa forma? Como?


sábado, 2 de fevereiro de 2019

Um brinde aos meus amigos!

O que seria da vida sem os bons amigos? 
Quer dizer... eu disse BONS amigos? Devo corrigir, não existem bons amigos. Amigo já é um adjetivo dos melhores. O bom mesmo é tê-los.
E quis o destino que eu tivesse muitos amigos, espalhados por esse mundão de meu Deus. O que também é outra coisa boa.
Há amigos de alma, há os que também são parentes, há os amigos de copo, os de samba, os de estrada, os amigos de trabalho, os de estudo, os dos livros, os de garfo, os de prosa e os de verso. E essas diferenças sempre nos dá muitos assuntos e boas risadas. Viva as nossas diferenças!
Uma coisa eles todos têm em comum. São amigos sinceros. Pessoas do bem.
Hoje não é o Dia do Amigo ou o Dia da Amizade, mas bateu um saudosismo de tê-los por perto. Já até me perguntei como seria se TODOS se encontrassem? Talvez não desse certo, mas um bom samba ou um bom rock poderia ser escrito desse dia.
Amigos são pontes para a construção de uma ilha de sentimentos que solidificam o nosso caráter. Pode haver outra definição melhor, mas essa é a minha.
Onde quer que estejam, o que quer que estejam fazendo, gostaria que soubessem o quanto sou grato pelo convívio que tenho ou tive com cada um de vocês. Obrigado por me ajudarem a ser quem eu sou. Mas me refiro à parte boa, a parte ruim é culpa só minha kkk. Não os culpo por isso.
E como já é tradicional, parafraseando um amigo que também é primo:
Beijo pra quem é de beijo, abraço pra quem é de abraço, e beijos e abraços pra quem ficou na dúvida!!!!

Saúde!!!!!

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

Chico Buarque

..."Eu fui à Lapa e perdi a viagem
que aquela tal malandragem não existe mais"...

Chico Buarque (trecho da música: Homenagem ao malandro)