quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

domingo, 28 de janeiro de 2018

Portugal e seus requintes literários

Quando fui à Portugal tentei refazer passos de alguns de meus ídolos da literatura. Um deles, sem dúvidas, é José Saramago. Pude conhecer a beleza e o tesouro cultural que é a Fundação José Saramago, na Casa dos Bicos, Largo das Cebolas, em Lisboa. Apesar das cebolas...

Um dos muitos textos que pude ler por lá, esse me deu uma aula de história lusitana e resolvi compartilhar por aqui. Espero que desfrutem como eu ainda hoje o faço.


Palavras para uma cidade
José Saramago

Tempo houve em que Lisboa não tinha esse nome. Chamavam-lhe Olisipio quando os Romanos ali chegaram, Olissibona quando a tomaram os Mouros, que logo deram em dizer Achbouna, talvez porque não soubessem pronunciar a bárbara palavra. Quando, em 1147, depois de um cerco de três meses, os Mouros foram vencidos, o nome da cidade não mudou logo na hora seguinte: se aquele que iria ser o nosso primeiro rei enviou à família uma carta a anunciar o feito, o mais provável é que tenha escrito ao alto Aschbouna, 24 de Outubro, ou Olissibona, mas nunca Lisboa. Quando começou Lisboa a ser Lisboa de facto e de direito? Pelo menos alguns anos tiveram de passar antes que o novo nome nascesse, tal como para que os conquistadores Galegos começassem a tornar-se Portugueses... Essas miudezas históricas interessam pouco, dir-se-á, mas a mim interessar-me-ia muito, não só saber, mas ver, no exacto sentido da palavra, como veio mudando Lisboa desde aqueles dias. Se o cinema já existisse então, se os velhos cronistas fossem operadores de câmara, se as mil e uma mudanças por que Lisboa passou ao longo dos séculos tivessem sido registradas, poderíamos ver essa Lisboa de oito séculos crescer e mover-se como um ser vivo, como aquelas flores que a televisão nos mostra, abrindo-se em poucos segundos, desde o botão ainda fechado ao esplendor final das formas e das cores. Creio que amaria a essa Lisboa por cima de todas as cousas. Fisicamente, habitamos um espaço, mas, sentimentalmente, somos habitados por uma memória. Memória que é a de um espaço e de um tempo, memória no interior da qual vivemos, como uma ilha entre dois mares: um que dizemos passado, outro que dizemos futuro. Podemos navegar no mar do passado próximo graças à memória pessoal que conservou a lembrança das suas rotas, mas para navegar no mar do passado remoto teremos de usar as memórias que o tempo acumulou, as memórias de um espaço continuamente transformado, tão fugidio como o próprio tempo. Esse filme de Lisboa, comprimindo o tempo e expandindo o espaço, seria a memória perfeita da cidade. O que sabemos dos lugares é coincidirmos com eles durante um certo tempo no espaço que são. O lugar estava ali, a pessoa apareceu, depois a pessoa partiu, o lugar continuou, o lugar tinha feito a pessoa, a pessoa favia transformado o lugar. Quando tive de recriar o espaço e o tempo de Lisboa onde Ricardo Reis viveria o seu último ano, sabia de antemão que não seriam coincidentes as duas noções do tempo e do lugar: a do adolescente tímido que fui, fechado na sua condição social, e a do poeta lúcido e genial que frequentava as mais altas regiões do espírito. A minha Lisboa foi sempre a dos bairros pobres, e quando, muito mais tarde, as circunstâncias me levaram a viver noutros ambientes, a memória que preferi guardar foi a da Lisboa dos meus primeiros anos, a Lisboa da gente de pouco ter e de muito sentir, ainda rural nos costumes e na compreensão do mundo. Talvez não seja possível falar de uma cidade sem citar quantas datas notáveis da sua existência histórica. Aqui, falando de Lisboa, foi mencionada uma só, a do seu começo português: não será particularmente grave o pecado de glorificação... sê-lo-ia, sim, ceder àquela espécie de exaltação patriótica que, à falta de inimigos reais sobre que fazer cair o seu suposto poder, procura os estímulos fáceis da evocação retórica. As retóricas comemorativas, não sendo forçosamente um mal, comportam no entanto um sentimento de auto-complacência que leva a confundir as palavras com os actos, quando as não coloca no lugar que só a eles competiria. Naquele dia de Outubro, o então ainda mal iniciado Portugal deu um largo passo em frente, e tão firme foi ele que não voltou Lisboa a ser perdida. Mas não nos permitamos a napoleônica vaidade de exclamar: "Do alto daquele castelo oitocentos anos nos contemplam" - e aplaudir-nos depois uns aos outros por termos durado tanto... Pensemos antes que do sangue derramado por um e outro lados está feito o sangue que levamos nas veias, nós, os herdeiros desta cidade, filhos de cristãos e de mouros, de pretos e de judeus, de índios e de amarelos, enfim, de todas as raças e credos que se dizem bons de todos os credos e raças a que chamam maus. Deixemos na irónica paz dos túmulos aquelas mentes transviadas que, num passado não distante, inventaram para os Portugueses um "dia da raça", e reinvidiquemos a magnífica mestiçagem, não apenas de sangues, mas sobretudo de culturas, que fundou Portugal e o fez durara até hoje. Lisboa tem-se transformado nos últimos anos, foi capaz de acordar na consciência dos seus cidadãos o renovo de forças que a arrancou do marasmo em que caíra. Em nome da modernização levantam-se muros de betão sobre as pedras antigas, transtornam-se os perfis das colinas, alteram-se os panoramas, modificam-seos ângulos de visão. Mas o espírito de Lisboa sobrevive, e é o espírito que faz eternas as cidades. Arrebatado por aquele louco amor e aquele divino entusiasmo que moram nos poetas, Camões escreveu um dia, falando de Lisboa: "...cidade que facilmente das outras é princesa". Perdoemos-lhe o exagero. Basta que Lisboa seja simplesmente o que deve ser: culta, moderna, limpa, organizada - sem perder nada da sua alma. E se todas estas bondades acabarem por fazer dela uma rainha, pois que o seja. Na república que nós somos serão sempre bem-vindas rainhas assim.

Fonte: Folhas Políticas 1976-1998, Caminho, 1999, pp 178-182.



 

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Desabafo de um motorista zen

Não faço ideia como alguns motoristas conseguem dirigir sem a menor noção de trânsito.
Tampouco como conseguem suas habilitações, quer dizer, até posso imaginar.
Aos amigos juristas a pergunta... não é crime permitir a emissão dessas carteiras a essas pessoas?
Dificilmente se vê o uso da seta, mas quando se usa...bom, é bom lembrar que a seta NÃO é uma PERMISSÃO automática para fazer uso do caminho. Não é informativa e afirmativa. É uma SOLICITAÇÃO de permissão para seguir naquela direção. Lembrando que, como toda a solicitação, está sujeita ao aceite ou não de quem é solicitado. Temos de esperar a decisão de quem solicitamos.
Sei que para alguns pode parecer complicado, mas espero que não seja aos meus amigos.
Muito difícil dirigir sem regras. Imagina na Índia como eles se entendem.

 

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Um brinde à vida!

Algumas lutas vem de batalhas que travamos na vida, e só ganha quem delas se empoderam. E a encaram de frente.
Só quem vive suas lutas e batalhas que sabe o preço e o valor de suas conquistas, ou o aprendizado e sabedoria das suas derrotas.
Cada um luta da sua maneira, e eu, ah, eu tenho a minha maneira. 
Poucas pessoas sabem, ou lembram, mas hoje foi meu aniversário. Celebro duas vezes ao ano. Tenho essa sorte. Tenho o dia 24/07 que é meu aniversário de nascimento e o dia de hoje, 16/01, meu aniversário de REnascimento. Há exatos cinco anos tive a oportunidade de viver novamente, após um infarto no sul do Chile. Pessoas generosas e extremamente profissionais me ajudaram a sair dessa, além das diversas manifestações religiosas de amigos, parentes e desconhecidos que convivi na UTI. A presença da minha mãe foi muito importante, só ela lembrava todos os anos desse dia. Ao longo de quatro anos. Esse ano ela não me ligou, mas pude sentir sua presença.
A vida tem que seguir seu fluxo natural, e vou remando, mas à favor da boa maré.
Quero deixar meu abraço à todos os meus amigos que de alguma forma tiveram outras chances de renascer nessa vida. E mais abraços aos que não tiveram, mas sabem combater o bom combate. Com a força do bem.
Um brinde à vida! 


domingo, 31 de dezembro de 2017

Que venha 2018 motivos para se lembrar de 2017!

Vivemos a internet das coisas, que nos faz viver na velocidade das conexões, na maioria da vezes efêmeras. Uma vida líquida, como prega Zygmunt Bauman. E essas conexões nos fazem desejar sempre um ano novo, melhor que o anterior. 
Hoje li que podemos nos fazer melhores, ao invés de esperar um ano que lhe tragam coisas. Em 2018, vou apostar nisso!
Essa confusão temporal que nos fez, em 2016, querer o ano atual, e que nos faz, agora, buscar já um novo. Serei o novo.
2017 foi um ano de muito, mas muito aprendizado para mim e minha família. Um ano de perda. A perda. Não tenho como falar em ganhos, quando o saldo será sempre injusto se colocarmos na balança. Mas ouve coisas boas.
Procurei crescer e buscar mais conhecimento. Valorizei mais minhas amizades, principalmente as mais antigas e verdadeiras. Ganhei amigos novos. Me aproximei mais de meus filhos. Busquei viver o que eles curtem. Conheci o significado, na prática, de companheirismo e cumplicidade. Vivi tudo isso ao lado da minha Vivi.
No final do ano tentei ir à todas as comemorações e celebrações típicas de final de ano, mas poucas pessoas, muito poucas, souberam o vazio que meu peito ainda carrega. Acho que me mostrar forte poderia me fazer forte. Ledo engano.
A perda da minha mãe me fez viver muitas ausências. Me fez viver as primeiras ausências, como meu primeiro aniversário sem um beijo dela, meu primeiro Natal sem ela, o primeiro Réveillon sem ligar para ela....mas o dia a dia foi mais cruel. Como não poder compartilhar sorrisos, conquistas, derrotas, conselhos e abraços com alguém que me ensinou o que é amar desde que nasci?
Meu travesseiro e meu filtro dos sonhos é que sabem o quanto minha mente não parou em 2017. Talvez por isso esse descanso no final do ano esteja me fazendo bem.
Mas pude ver, também, que a distância física da minha fé, da minha religião, fez meu entendimento e compreensão sobre a passagem da minha mãe serem mais difíceis. Vou me dedicar mais à isso também em 2018.
Os últimos cinco anos foram os mais difíceis da minha vida, me fez uma casca à qual eu não pedi que existisse. Tampouco imaginei.
Tive um infarto aos 40 anos, perdi as duas pessoas que mais amava, minha avó Joana e minha mãe, em um intervalo de dois anos. 
Desejo que esse ano nunca seja esquecido, até para fortalecer mais essa casca, mas que depois dessa tempestade venha 2018, com motivos para tranquilizar meu coração e minha alma. Que o mundo em que vivemos possa sofrer alguma transformação positiva com mais bondade e união de todos os povos.
A passagem de Ano sempre foi minha data preferida, mais até que a data de aniversário. É o renovar da esperança, a transição de bons desejos. No dia primeiro espero me banhar ao mar e deixar por lá tantas tristezas e dificuldades, e sair da onda da inércia e dos destemperos com mais energia para buscar ser melhor que antes.
À todos os meus amigos e parentes mentalizo um Feliz 2018 e que possamos nos ver e nos abraçar muito mais que sempre!
Namastê!!!!