domingo, 23 de julho de 2017

À minha mãe

Tenho passado por dias difíceis, semana inteiras, noites incompletas e desconectas.
Após as experiências espirituais que tive na minha vida e aprendendo a lidar com desconexões da matéria, pensei que estava evoluindo espiritualmente. Não sabia que estava por sentir a pior, até então, das minhas provações.
Minha mãe fez sua passagem no dia 03/06/2017, e há quase dois meses sofro sua ausência.
Sei que ela precisava cumprir sua missão e trabalhar sua evolução espiritual, e que, onde está, está bem amparada e fazendo parte do Todo.
Mas como não receber suas ligações, como não saber sua opinião, como não sentir seu afago, muitas vezes discreto, mas sempre presente?
Com sua desconexão perdi meu porto seguro, meu chão.
Hoje, pela primeira vez na minha vida, meu almoço de aniversário não teve Dona Dotye. Como ficar sem nenhuma reclamação do restaurante que escolhi? Como ficar sem seu sorriso e sua inquietação dizendo que eu almoço muito cedo? Como não ter como roubar-te um abraço e um beijo?
Minha mãe partiu antes mesmo do que ela imaginava. Tinha receio de ir cedo. Saiu como fazia em seus tempos de festas e pubs, sempre à francesa. Assim ela fez.
Minha última foto com minha mãe foi em um local que ela curtia muito, em um piano bar, com algumas de suas amigas, conversando, bebendo e ouvindo boa música, recitadas por mais amigas e amigos. Com sua alegria à vi pela última vez, sem saber que seria.
Amanhã completo 4.5 anos de idade. Sempre reclamei que ela não gostava de comemorar aniversários. Fugia de todos. E eu sempre festeiro.
Hoje entendo seus motivos.
Não deixarei de ser como sou, mas dessa vez.... a dor é muito forte e recente. Espero que em 2018 eu consiga fazer uma festa para lembrar como minha mãe me ensinou a ser feliz.
Esse ano....não conseguirei.
As lágrimas têm feito caminhos constantes em meu rosto. Trazendo à pele o sal da saudade e das memórias mais gentis. Das broncas e aprendizados, dos conselhos e opiniões, das tristezas e dos sorrisos.
E pela primeira vez, não será você, minha mãe, quem sempre se orgulhou de ser a primeira a me dar os parabéns por mais um ano de vida. Ao menos não fisicamente.
Em meus mantras e orações tenho emanado muita energia positiva e pedido que me ajude a acalmar esse meu coração já incompleto.
Te amo minha mãe.
Olhe por nós.

 
 

4 comentários:

  1. Feliz aniversário amigo. Que bom que você existe e com suas palavras acalente os corações de nós todos que também temos que nos separar dos nossos. São nesses aniversários dos "enta"... D. Doyte com certeza está feliz por você ser quem você é. Lá do astral vibrando por você.
    Fica com Deus.

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  2. Texto muito tocante e legítimo da saudade que essas desconexões, ainda que temporárias e previsíveis, causam. Encontrei uma vez com sua mãe aeroporto, e em um breve diálogo percebi com vocês se parecem. A atenção, a alegria, alguns gestos. A dor, com o tempo vai cedendo espaço para "aquela saudade que eu gosto de ter", como já versou o cancioneiro. Grande abraço e que o Senhor da Vida abençoe sempre seus caminhos com sabedoria e equanimidade. Namastê!

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  3. Ângelo, gostaria de dizer-lhe que próximo ano será menos dolorido; mas, pelo menos comigo não foi. ão perdi a minha mãe, mas perdi uma filha e suponho que as dores são iguais. Hoje, passados 18 meses a dor continua tão intensa quanto naquele dia 20/01/2016.
    Desejo-lhe conforto...

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  4. Também são desconectas e incompletas as noites do seu irmão. Ele também quer os conselhos da mãe ao telefone. Dotye também era o porto seguro dele. Que nessa dor sem tamanho que vocês compartilham neste momento, o laço fraterno entre vocês dois se fortaleça para que um aprenda a ser um novo porto seguro do outro. Tenho certeza que Dotye sente a mesma saudade e se alegra de ver seu filho querido em mais um ano de vida. Que você tenha muita saúde, meu cunhado, e que você continue com esse jeito leve e risonho de levar a vida. Grande abraço, Izabela Fiuza

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